Philip Roth, 80 anos

Philip Roth completa 80 anos nesta terça-feira (19 de março) e, neste mês, o escritor norte-americano é tema de exposições, publicações especiais e eventos, além de um documentário da PBS de título “Unmasked”. Nada disso, porém, parece revelar verdadeiramente esse autor que sempre se coloca de forma tímida e avessa aos holofotes. De tudo o que se diz a seu respeito, um de seus depoimentos reunidos no documentário é o mais significativo, porque se opõe a uma definição que tanto estigmatiza o escritor: “Eu não adoro me ver descrito como um escritor judeu-americano. Eu não escrevo em judaico. Eu escrevo em americano”.

Ganhador do Prêmio Pulitzer e do National Book Award, Roth publicou mais de 30 livros, muitos deles debruçados sobre questões relacionadas ao judaísmo, mas é preciso olhar além disso para compreender por que o público, a crítica e outros escritores o consideram hoje o maior autor norte-americano vivo.

Se, por um lado, o judaísmo na obra de Roth tem uma função quase terapêutica, pela qual ele dá vazão aos próprios conflitos; por outro, se torna uma espécie de caminho pelo qual se aprofunda em problemas universais. Por exemplo, quando descreve, em “O Avesso da Vida”, a busca de Henry Zuckerman por uma identidade judaica, fala principalmente da angústia de um homem americano, que tenta encontrar a própria essência em meio às suas raízes e às influências de um país multicultural.

Já em “O Complexo de Portnoy”, quando Roth trata da libertação sexual de um homem obcecado pela imagem da mãe e oprimido pela religião, aborda também os tormentos a que qualquer homem moderno é exposto, entre a pressão para desfrutar do sexo livre até as pesadas expectativas sociais e morais.

Assim, o personagem fundamental de Roth, tão replicado em suas obras, é o homem universal, que tenta sobreviver e encontrar felicidade apesar da frustração profissional, do desejo, dos fetiches, da pressão do casamento, das derrotas do dia a dia e das seduções do adultério.

Ele vive, ainda, em um contexto político muito familiar, pontuado pelos conflitos armados recentes, pela violência e pelo terrorismo, o que só aumenta a identificação de quem lê essas narrativas. A cereja desse bolo é o sarcasmo, que faz com que Roth se permita a liberdade de rir de seus personagens mesmo em seus momentos mais dramáticos, estendendo prontamente essa liberdade ao leitor. É o que torna a sua obra tão grandiosa, marcante e imortal.

*Originalmente publicado no site da Revista Bula, aqui.

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