A lição de “Faça Acontecer”, de Sheryl Sandberg, para as meninas de “Girls”

A indústria norte-americana do entretenimento está apaixonada por Lena Dunham. Do alto dos seus 26 anos, ela já dirigiu um filme, “Tiny Furniture” (2010), assinou um contrato de US$ 3,5 milhões com a editora Random House para publicar seu primeiro livro e acaba de encerrar a segunda temporada de “Girls”, série televisiva de sucesso que criou e protagoniza.

Apesar de vir no embalo de uma sequência de vitórias profissionais de Dunham, “Girls” tem brilho próprio. Rendeu dois Globos de Ouro para a atriz e quatro indicações ao Emmy. Tudo isso resultado de uma combinação bombástica entre sarcasmo e um retrato da geração atual, por meio da história de quatro jovens amigas que tentam sobreviver em Nova York.

O mote pode remeter à série “Sex and The City”, mas “Girls” opta por um caminho bem menos “glamoroso” e apresenta personagens que não conseguem se realizar profissionalmente, que se envolvem constantemente em relacionamentos amorosos e sexuais desastrosos, festas furadas e uso displicente de drogas.

Esses fatores parecem conectar a série ao público e garantir seu sucesso. No entanto, existe um aspecto que confere o tempero mais crítico ao programa e que merece uma reflexão especial. Independentemente do assunto — de relacionamentos amorosos a busca por trabalho —, está sempre à espreita o fato de as mulheres se colocarem ou serem colocadas em uma posição de inferioridade.

Por exemplo, isso acontece quando Hannah, personagem vivida por Lena Dunham, e suas colegas de trabalho aceitam o assédio sexual do chefe para terem tranquilidade no dia a dia da empresa. Também aparece quando Jessa, jovem de espírito hippie, viajada e livre, acaba se casando, de uma hora para a outra, com um homem boçal que a humilha quando se cansa dela. Ou ainda quando Marnie, funcionária competente de uma galeria de arte, é demitida e se torna hostess de um bar em que tem que vestir um traje curto e sexy.

Por que essas mulheres toleram essas situações? Por que mantêm relacionamentos ou sustentam ocupações profissionais degradantes? Esses questionamentos são quase uma provocação de Lena Dunham, mas não deixam de estar afinados com a realidade. Prova disso é o lançamento do livro “Faça Acontecer” (Companhia das Letras), da executiva do Facebook, Sheryl Sandberg, que chega neste mês de abril às prateleiras brasileiras.

Na obra, Sandberg reúne uma série de dados de pesquisas e demonstra que, apesar dos avanços na luta das mulheres por igualdade de direitos e oportunidades, ainda há muito o que conquistar. Aponta, por exemplo, que as mulheres já são maioria nos cursos de graduação e pós-graduação, mas ocupam somente cerca de 15% dos cargos mais altos nas empresas. Atribui a isso fatores como o preconceito, a falta de flexibilidade e a falta de oportunidade, mas também a postura da mulher: “Nós também nos barramos. Não assumimos a liderança, não levantamos nossas mãos, não deixamos nossas vozes serem altas o bastante”, diz.

Ela alterna esses índices com seu próprio exemplo e se recorda do dia em que começou no Facebook, quando duvidava de que seria capaz de dar conta do trabalho. Para ela, esse é um fator decisivo, por isso defende que as mulheres sejam mais agressivas e se “sentem à mesa”, ou seja, se posicionem, perguntem, opinem e realizem — tudo isso com mais segurança.

Os conselhos de Sandberg dizem respeito principalmente ao comportamento da mulher no mercado de trabalho, mas podem se estender a outros campos também. A mulher tende a ganhar pessoal e profissionalmente quando entende a força de sua expressão e de suas ações. Ironicamente, essa é uma lição que se mostra bastante democrática e vale para todo mundo: para mim, para você, para a Sheryl Sandberg e para as personagens de “Girls”, que, assim, teriam mais chances de se tornarem as mulheres que sonham em ser. Se a série de Lena Dunham seria igualmente genial, já é outra história…

*Originalmente publicado no site Revista Bula, aqui.

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