Adele

Pouso os olhos sobre Adele e penso como a vida seria se eu fosse aquela mecha de cabelo desordenada que sai do coque, no topo da cabeça, para cair levemente sobre a pele dourada da bochecha. É só um tufo de cabelo, mas me pego pensando que é um tufo de cabelo diferente, privilegiado, porque tem a sorte de acompanhar os passos da menina, de tremer com o som do seu riso, de se molhar com o peso das suas lágrimas.

Uma mecha de cabelo é inanimada, eu sei, mas posso jurar que ela me sorri quando se planta sobre o rosto de Adele. Entre a brincadeira dos dedos adolescentes, se exibe como uma guardiã da inocência da garota, um símbolo daquilo que é invisível, mas que dá a Adele o frescor de quem nem sabe a vida de promessas que tem pela frente.

E se um vento quente sopra, ou se o hálito de outras bocas se aproxima, a mecha muda, dança e se embaraça por entre os lábios de Adele. Serpenteia no compasso de um ritual mudo. Pede para voltar em ordem para o coque de Adele, libertar, assim, a boca da moça e, de guardiã da inocência, se transformar em cúmplice do desejo.

* Inspirado no filme “Blue is the Warmest Colour” (http://en.wikipedia.org/wiki/Blue_Is_the_Warmest_Colour).

 

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