Cláudia

Cláudia

Ferreira

Cláudia

Guerreira

Cláudia sempre de bom humor

Imagino como Bandeira

Cláudia chegando ao céu

e São Pedro bonachão:

Entra, Cláudia,

você não precisa pedir licença.

De repente me imagino assim, também sem pedir licença, entrando na casa de Cláudia. Puxando uma cadeira e me sentando à mesa, enquanto ela ferve a água para fazer café. De chinelo nos pés, Cláudia joga o pano de prato sobre o ombro, põe a mão na cintura e se vira para me olhar. E, quando os nossos olhos se encontram, eu vejo que a gente tem mais em comum do que pode parecer.

Eu não sei o que é ser uma mulher negra na periferia do Rio de Janeiro, mas olhando nos olhos da Cláudia sinto que, como eu, ela era do tipo que acordava cheia de preguiça, só que do tipo que não deixava a moleza lhe engolir. Porque afinal tinha criança para comer, tinha barraco para erguer, tinha vida para tocar para frente. Cláudia não negava batente, tava na cara. Na cara e no corpo forte, de braços robustos e tronco largo.

Esse porte faz a gente pensar na dureza da Cláudia, na braveza de uma mulher que parecia não se curvar, mas seguia em frente dia após dia, mesmo com a polícia, o tráfico, a bala, a morte, a droga e o crime rondando a porta da casa dela. Para além de tudo isso, tem alguma coisa que me faz ver Cláudia como um poço enorme do mais doce acolhimento. Mulher de colo quentinho, carinho infinito de mãe e de tia, do tipo que distribui afeto — e bronca — sempre que necessário.

Me pergunto se Cláudia gostava de cozinhar. Me pergunto se Cláudia queria mesmo ser auxiliar de limpeza. Se tinha um sonho escondido. Se ainda amava o marido, depois de 20 anos de casamento. Se curtia funk ou samba. Se preferia doce ou salgado. Se gostava de se arrumar. Se era do tipo que comemorava aniversário. Se tinha medo de envelhecer. Se era chegada numa cervejinha. Se gostava de futebol.

Mas nunca vou saber as respostas. Cláudia e eu nunca vamos tomar um café, falar mal do marido, dos filhos, das coisas da vida. Fico aqui, assolada pela tristeza do nosso encontro impossível, de ela ter tido um destino trágico que uma mulher como ela não merecia, que, afinal de contas, ser humano nenhum merece. Fico apenas com a imaginação, com uma cena inventada da troca entre duas mulheres, com um mundo de afeto e justiça com o qual ainda teimo em sonhar.

 

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