Marisa

Para conhecer Marisa, primeiro você precisa entender o tamanho da exuberância dessa mulher. Ela faz o tipo que anda por aí com a maquiagem impecável, uma aura de perfume e roupas que caem certeiras sobre as suas belas curvas. O tipo que, só de olhar, a gente percebe a vaidade, o brilho, o cuidado consigo. E se prestar atenção nos detalhes — no chaveiro pendurado pro lado de fora do bolso, no livro jogado no porta-luvas –, vai intuir que Marisa é como uma daquelas caixinhas que guardam outra caixinha dentro de si, e dentro dessa mais outra, cada uma com uma novidade que ninguém suspeita encontrar.

Se você abrir a primeira caixinha, vai descobrir que Marisa é taxista, e diga-se de passagem uma taxista acostumada a chocar as pessoas pelo fato de ser taxista. Porque quem vê Marisa pedestre na rua nem desconfia do ofício dessa mulher, e se depois a encontra motorista, toma uma espécie de susto, como quem vai ao restaurante preferido e, em vez de receber o pedido “de sempre”, é surpreendido por uma tremenda invencionice do chef. Parece que há algo fora do lugar, mas é difícil saber o que: se é o carro, que atrapalha a beleza da moça; se é a moça, que não poderia estar no posto de condutora do carro. No entanto, nos segundos seguintes, depois que o passageiro constrangido informa seu destino e Marisa arranca o carro, o susto se dissipa: mulher e máquina entram em uma conexão afinada e escrevem caminhos sobre o asfalto com segurança e doçura. O passageiro respira fundo deslumbrado, sob o contorno da certeza de que Marisa nasceu para aquilo.

Repare, Marisa pouco liga para esse choque inicial e enche a boca para falar das alegrias que o ofício lhe dá. Mas, se você der um dedinho a mais de prosa para a moça, vai saber que tem uma coisa, uma coisa só, que ela acha ruim: o tempo livre. E com razão – isto pode surpreender os mais desavisados, mas a verdade é que o tempo livre é um troço abundante na vida de um taxista, quase um companheiro desagradável que teima em aparecer entre uma corrida e outra, num engarrafamento ou quando se espera um passageiro em algum lugar. Muitos motoristas espantam esse parceiro com tevês portáteis e radinhos, mostrando o equipamento com orgulho para cada passageiro que entra no carro.

Mas com Marisa é diferente. Desde pequena, ela é apaixonada por romances policiais e usa cada gota do tempo que tem para se embrenhar nessas histórias. Aliás, no começo da vida de taxista, ela gastava parte do ordenado suado em volumes e mais volumes que comprava em sebos. Isso até o dia em que um cliente meio esquisitão — ela lembra direitinho, de óculos e paletó marrom surrado, um livro desencapado embaixo do braço — deu uma ideia diferente: por que não fazer uma carteirinha em uma biblioteca pública?

Marisa ruminou a ideia por alguns dias. Resolveu dar um pulo na biblioteca perto da sua casa só para conhecer. Quando entrou, parecia um santuário: um casal falava baixinho ao pé de uma prateleira; uma mulher sentada à mesa sussurava palavra por palavra do livro à sua frente; pai e filho semideitados sobre um sofá riam em silêncio, os dedos mudos apontando os desenhos das páginas. Foi um momento catártico na vida da taxista, daqueles que transformam a vida toda da gente. E, desde aquele dia, há cinco anos, Marisa segue religiosamente a mesma rotina: toda segunda-feira passa na biblioteca para emprestar dois livros e devolver os que pegou na semana anterior — nas férias, abre uma exceção: arremata de seis a oito volumes de uma vez em um sebo virtual e se entope de crimes, sangue e mistérios à beira do mar.

Caso você pergunte a ela se tanto romance policial não cansa, ela lhe dirá que não. Vai lhe explicar que esse amor vem da infância, do avô que veio do Maranhão na caçamba de um caminhão e que, ao encontrar livros velhos da Agatha Christie, aprendeu a ler, a ocupar o tempo livre e os aborrecimentos com aquelas histórias fantásticas. Foi com o velho que Marisa entendeu como essas tramas de crueldade podem curar a alma da gente. E quando ela experimenta fugir do script, é batata, a leitura acaba em descontentamento.

Ela lembra, por exemplo, quando emprestou “A cidade do sol”, que conta histórias sofridas de mulheres que vivem no Afeganistão. Ficou impressionada com a tortura e a violência que as personagens tinham de enfrentar. Chorou muito, enojou-se, de sentir o estômago embrulhar e se torcer todo, e, por fim, se prometeu nunca mais ler um livro sequer daquele homem, Khaled Hosseini, que acabou com um mês da vida dela, em que as histórias giravam e giravam na sua cabeça. Mais do que crime e mistério, ela começou a achar que difícil mesmo é a gente olhar de frente para o tanto de sofrimento que existe por aí e que ninguém vê.

Vez ou outra acontece também de Marisa emprestar um livro “chato”, que não prende sua atenção. Ela insiste, faz um esforço danado, até que não aguenta e acaba devolvendo a obra antes da hora. E isso pode parecer besteira, mas, na rotina meticulosamente planejada de Marisa, é quase um pecado: ela precisa mudar o plano de viagens, reprogramar horários de clientes fixos e fazer trocas com colegas de ponto para cruzar com a biblioteca antes da segunda chegar.

Moralmente também não é fácil. Marisa se pergunta se é certo levar a história de volta para a biblioteca sem terminar de ler. Acha que fica em dívida com o autor, o editor, o pessoal que teve o trabalho todo de fazer aquele livro. Também se enche de vergonha do atendente da biblioteca, um homem que ela considera inteligentíssimo. Quando ela volta antes, ele logo pergunta: “Não gostou desse não, Marisa?”. Ela sente as bochechas corarem violentamente, mas aí, quando o momento passa e ela entra no táxi com um livro novo, cheio de promessas, vai se deixando arrebatar pela mais doce e leve sensação de alívio. Ela acha muito bonito isto de, pelo menos na biblioteca, a gente poder escolher as histórias que quer percorrer.

 

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