Matilde

Deitada sobre a cama, Matilde esperava. Sentada em uma cadeira da mesa de jantar, Matilde esperava. Sob o sol excruciante que inundava o jardim, Matilde esperava. Decifrando garranchos que preenchiam os cadernos de Neruda, Matilde esperava.

Que o tempo voltasse, Matilde esperava. Que a vida ressurgisse em “La Chascona”, Matilde esperava. Que a porta do esconderijo secreto se abrisse e trouxesse com um sorriso trôpego e rotundo o poeta – Matilde esperava.

Esperava porque esperar era a condição que sempre lhe coubera. Porque, antes de conhecer o amor, conheceu a ausência. Porque vinte anos se passaram do dia em que conheceu Neruda ao momento em que pode amá-lo livremente. E, por fim, porque o destino lhe concedeu menos tempo, apenas sete anos, como esposa deste que seria o grande amor de sua vida.

Acima de tudo, Matilde esperava porque o vazio deixado por Neruda não podia libertá-la. Eis a peculiaridade de se amar um poeta: ainda que Neruda não mais existisse em carne, seu humor, sua arte e sua paixão estavam ali, vivos nas palavras que lotavam as páginas de todas as cópias de todos os livros que havia publicado. Neruda era imortal; Matilde, sua eterna escrava.

E era assim que, mesmo depois da morte, Neruda tinha o poder de congelar a vida de Matilde. Porque, afinal, era preciso admitir que, para além do amor e dos versos, Matilde viveu também a angústia e a privação de ser a “outra”, de anos incalculáveis na espera – sempre ela – de que Neruda largasse a antiga esposa, que assumisse o caso deles, que publicasse os poemas dedicados a ela.

Tantos anos haviam se passado, mas a memória daqueles dias difíceis espreitava Matilde quase provocativa na figura do seu duplo perfil, pintado pelo artista Diego Rivera. Duplo porque, como Rivera bem sabia, havia uma Matilde outra que pertencia a Neruda, que existia somente para o poeta. Na época em que a obra foi finalizada, Neruda amou-a como amou Matilde: pelos cabelos ruivos e sibilantes que o atraíam para o romance proibido. Por isso, fazia questão de exibir o quadro na sala da casa. Matilde, por outro lado, nunca se afeiçoara à imagem e menos ainda à alusão à Medusa, essa monstruosidade ancestral capaz de fazer de pedra a carne de quem olhar para ela.

Mas um dia, de alma envenenada, buscou uma tesoura pontuda na gaveta da escrivaninha, arrancou a tela de Rivera da parede e, com um gesto brusco, apunhalou o duplo perfil da imagem. Depois de recobrar o fôlego, empregou a tesoura em um movimento vagaroso e ritmado, contornando uma das figuras. Quando completou toda a volta do desenho, a imagem destacada caiu flutuante sobre o chão, como uma pena levada ao solo em dias de pouco vento.

Matilde, então, levantou-se e devolveu a tela, agora picotada, à parede da sala. Apesar do luto, pôde desenhar no rosto um esboço de sorriso: ali estava uma imagem que enfim a representava – amputada, recortada e irremediavelmente incompleta, para sempre.

* Inspirado em Matilde Urrutia (http://en.wikipedia.org/wiki/Matilde_Urrutia).

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