Dia da Mulher: rosas, chocolates e artes cafonas nas redes sociais

Para mim, o Dia da Mulher sempre teve o gosto amargo de chocolate distribuído na empresa, rosas dadas em restaurante por quilo e frases cafonas semeadas pelas redes sociais. Tantas pessoas empenhadas em homenagear as mulheres — de um jeito torto, muitas vezes –, mas o que sempre me batia era quase uma vergonha por fazer parte do time das homenageadas, por receber um tratamento diferenciado por ser mulher. Não pessoa, não humano, mas mulher.

Sempre defendi um tratamento igualitário, ser vista como mais um ser humano na multidão, sem a diferenciação do meu gênero, até que um dia me tornei mãe. E não é que a coisa tenha mudado aí, mas foi ficando difícil bancar. Já durante a gravidez, eu percebia como todos à minha volta esperavam que eu me sentisse “normal”, que eu “rendesse” tanto quanto antes. Afinal, “gravidez não é doença”, não é essa a frase que a gente mais ouve?

Depois, meu filho nasceu, saí de licença-maternidade e voltei quando ele tinha quatro meses — um bebê bem pequeno, que nem sentava ainda. No retorno ao trabalho, senti novas dificuldades e ainda aquela pressão para fingir que estava tudo bem, que eu me sentia readaptada ao emprego, que eu podia “render” como qualquer colega homem, mas a verdade era que eu estava no meio de um turbilhão de hormônios e dúvidas, sem sequer saber o que eu queria fazer da vida em qualquer campo: pessoal, profissional… E ainda tinha a distância do bebê.

Poucos meses depois, resolvi mudar. Com o tempo descobri que queria me tornar uma escritora e trabalhar como freelancer até isso acontecer, o que também me permitiria estar mais perto do meu filho. No começo, largar a via convencional de trabalho foi duro, porque muitas vezes você é tachada de louca, hippie, preguiçosa, mas, quando prestei atenção ao que eu queria fazer, tudo passou a fazer mais sentido.

E esse encontro com a minha verdade para a vida acabou por motivar um encontro maior com o meu feminino. Porque ainda que eu exercesse a atividade profissional que eu queria e que ficasse mais tempo com o meu filho, como queria, outras questões se colocavam: Como dividir as tarefas domésticas no lar? Como organizar o tempo de trabalho e os cuidados com a criança? Como dar conta de tudo o que eu queria fazer? Como me sentir à vontade em um corpo de mãe recente quando o mundo só mostra exemplos de mulheres que têm filhos e logo voltam à forma? Como, em meio a tudo isso, me divertir, sair para beber, encontrar amigos etc.?

Na busca por respostas, encontrei mulheres muito parecidas comigo, mas o mais interessante é que as respostas que cada uma encontrava para a própria vida eram únicas. Pelas conversas, trocas e estudos, percebi que o que o feminino guarda de mais especial é um leque riquíssimo de vertentes e opiniões. Entender que os ritmos, os ciclos e as opções de vida de cada mulher são únicos e muito diferentes é também brindar a tolerância e o respeito ao outro, algo que no mundo do trabalho e da maternidade muitas vezes é deixado de lado em função da competição, de se provar constantemente melhor profissional ou mãe.

Assim, pela via do feminino, em toda a sua diversidade, me conciliei com o meu caráter único e diferente de ser. No fim, se neste Oito de Março eu ganhar uma rosa, um chocolate ou uma homenagem qualquer, talvez ainda me sinta desconfortável, principalmente por achar que essa lembrança no Dia da Mulher é só um prêmio de consolação por sofrermos injustiças e violências em tantos lugares e de tantas maneiras. O que vai ser diferente vai ser o orgulho de ser mulher e única. Ah, esse eu vou levar comigo para sempre.

*Originalmente publicado no portal Brasil Post.

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