Qual é a cara do príncipe encantado de hoje?

Esqueça o príncipe que acorda a Branca de Neve com um beijo ou o Super-Homem, que combate o mal com seus superpoderes. O herói atual tem outro estilo: bonito, charmoso e profundamente apaixonado, sua única missão é fazer a mocinha feliz, abrindo mão, para isso, dos próprios desejos. É esse o tipo dos protagonistas dos últimos grandes best-sellers literários, sucesso principalmente entre o público feminino.

(Atenção: spoilers logo abaixo!)

Veja, por exemplo, Augustus Waters, de “A Culpa é das Estrelas”. Ele é um rapaz alegre e cheio de vida que traz uma nova perspectiva para Hazel, jovem com câncer em estágio terminal. Apesar de também lidar com a doença, Augustus se preocupa menos com seus próprios problemas do que com a felicidade da amada. Ele usa seu último desejo para realizar um sonho de Hazel, interrompe um tratamento médico para viajar com ela e esconde uma recaída para não chateá-la.

Já Christian Grey, de “Cinquenta Tons de Cinza”, tem um lado mais duro. O bilionário quer submeter Anastasia à prática da dominação sexual e puní-la com chicotadas e tapas. Com a paixão, no entanto, Grey deixa o aparato sadomasoquista de lado e se torna um namorado carinhoso, cheio de rompantes românticos, presentes caros e cuidados excessivos com a amada. Ele coloca seguranças atrás dela e chega ao extremo de comprar a empresa em que ela trabalha para controlar todos os seus passos.

Por fim, na série “Crepúsculo”, o vampiro Edward diz, entre outras coisas, que a respiração de sua amada é seu maior presente ou que nenhum espaço de tempo seria suficiente para ficarem juntos, mas que podem começar com o “para sempre”. Além disso, suas ações se dividem entre proteger Bella dos outros vampiros, competir com o lobo que também ama a sua mulher e cuidar de cada movimento dela. Chega ao ponto de evitar o sexo porque não quer machucá-la ou de permitir que sua namorada passe a noite abraçada com seu inimigo para ficar aquecida.

Assim, o homem perfeito que aparece nesses romances tem um tipo um tanto quanto antiquado: é excessivamente cuidadoso e dedicado, dependente da amada e tão “grudento” que, em alguns momentos, beira o insuportável – em outros, chega a ser controlador e possessivo.

Mas o mais interessante é pensar nesse perfil diante da realidade atual das mulheres. Apesar dos pesares, estamos cada vez mais fortalecidas no mercado de trabalho, empoderadas no lar e conquistando posições de igualdade com os homens nos relacionamentos.

Será que o sucesso dessas histórias seria uma percepção da indústria do entretenimento de que, no fundo, muitas mulheres sonham em abrir mão da independência para serem cuidadas e protegidas por seu parceiro? É claro que afirmar isso seria um exagero, mas tendo a achar que a admiração por esses novos mocinhos sugere que há, entre algumas mulheres, uma espécie de falta, um desejo maior por cuidados e carinho. E isso não se dá apenas no âmbito do relacionamento: em todos os cantos, as mulheres têm buscado se agrupar para conversar sobre amor, maternidade, feminismo e o significado de ser mulher, procurando apoio e afeto umas nas outras.

Voltando ao ideal do príncipe encantado, é claro que é bastante arriscado levar o modelo dos homens dessas histórias para a vida. Primeiro porque toda idealização é traiçoeira: o mocinho da ficção não tem as limitações do ser humano, e buscá-lo pode perpetuar ainda mais a roda das desilusões amorosas. Depois, como disse antes, há o fato de que esses príncipes têm um excesso perigoso, que é o comportamento controlador e por vezes agressivo – vide Christian Grey. Procurar homens como esses na vida real poderia, em último caso, conduzir a episódios de violência.

Mas, para além de tudo isso, acho bonito perceber que talvez estejamos inaugurando um momento em que é legítimo reconhecer a vontade de ser cuidada. E não se trata de abrir mão das nossas conquistas e da nossa independência, mas de saber ocupar diferentes posições e transitar entre o papel de cuidar e o de ser cuidada – sem vergonha de admitir isso. Talvez essa seja a reflexão mais importante que esses livros, com todos os seus inúmeros problemas, proporcionam. E se eles podem fazê-lo, talvez não sejam tão descartáveis como podem parecer à primeira vista.

*Originalmente publicado aqui, em blog do Brasil Post.

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