No Espelho

Ser gorda é um excesso, um eterno não caber. É ter um corpo que transgride calças, blusas, calcinhas e vestidos, que se ajeita apertado no assento do cinema e que inevitavelmente encosta em outro corpo se ele se senta, por exemplo, em um lugar no ônibus.

Ser gorda é ser proprietária de uma pesada carga de carne macia, como uma tonelada de algodão. É vestir uma capa de tecidos que por vezes te esconde e por vezes te protege. Ser gorda é também ser feita de contradições.

Ser gorda é aceitar os movimentos naturais de um corpo que reverbera e treme ainda que só um braço ou uma perna tenham sido postos em ação. É entender que coxas não são sempre lisas, mas tortuosas, e que podem fazer bolhas ou brotoejas em dias de saia e calor. Ser gorda é aprender sempre e mais sobre si.

Ser gorda é ouvir que não se pode ser bonita sendo gorda, e que já que não se pode ser bonita sendo gorda é preciso caprichar no resto: ser engraçada, inteligente, simpática. Bonita mesmo, nunca. No máximo, “de rosto”.

Ser gorda é ter o apetite e a força para engolir, uma após a outra, uma sequência de afrontas e dificuldades.

Uma vez uma menina gorda ouviu da mãe que não poderia ser feliz sendo gorda.

Outra vez uma garota gorda soube que os garotos do colégio apostavam para ver quem teria coragem de beijá-la.

Teve ainda outra gorda que ousou ficar com dois rapazes numa mesma festa e virou a piada da escola. Onde já se viu uma gorda se dar bem?

Pois dizem que essa gorda ignorou todas as opiniões e se achou belíssima. Deixou de lado a insegurança, resolveu não ligar para essa história toda e foi muito feliz – mas ninguém tem certeza se ela existiu de verdade.

*Publicado originalmente no Canal Subversa, aqui: http://canalsubversa.wordpress.com/2014/09/15/no-espelho/.

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