No shopping

Uma tragédia: o mundo como o conhecemos teria acabado e só restaria um shopping center com as pessoas aprisionadas ali. Elas seriam alertadas por um segurança para que não saíssem de lá, ou talvez teriam assistido à destruição quase total da raça humana pelas portas de vidro. De qualquer maneira, naquele momento saberiam que o melhor a fazer seria ficar ali para sempre.

E logo de cara todos pensariam “que sorte! Justo um shopping center!”, porque afinal estariam em um lugar com suprimento infindável de roupas, colchões, travesseiros, livros, brinquedos, comida… Seria muito mais do que aquele amontoado de pessoas jamais sonhara em possuir. Agora, sem precisar do intermédio do dinheiro para desfrutar dos produtos, a moça sem um tostão furado poderia desfilar com a bolsa mais cara do mundo, o rapaz pobretão ousaria vestir um terno chiquérrimo pela primeira vez, a criançada poderia brincar com todas as bonecas, carrinhos e peças de montar que quisesse, sem precisar fazer berreiro para convencer os pais.

Comida, então, teria de fartar: iogurtes e sorvetes teriam que ser consumidos logo, antes que estragassem em função do fim do sistema de refrigeração, mas depois haveria um mundo de pacotes, caixas e latas de todos os tipos, valores e sabores, que serviriam muito bem a todos os que restariam no shopping.

O espaço seria mais bem-abastecido que qualquer bunker, mas penso que o fim dos sobreviventes se anunciaria pelo tédio. Imagino homens, mulheres e crianças cansados de vitrines. Inebriados pelas opções, passariam a experimentar extremos: a menina que nunca ligara para moda ocuparia horas calçando todos os sapatos que visse pela frente; o rapaz que sempre achara ler uma chatice decidiria se aventurar pela livraria e ler tudo, da seção de autoajuda a de vendas e serviços; a criança alérgica a glúten devoraria uma prateleira de biscoitos.

Assim, os corredores seriam dominados não por pessoas felizes munidas de suas sacolas, mas por zumbis vestidos com combinações esquizofrênicas, ensopados de perfume, apinhados de acessórios, pesados com tantos objetos acumulados. Os dias seriam sequências repetidas à exaustão, até o instante em que não restasse uma peça de roupa em uma arara de uma loja, que não sobrasse um livro em uma prateleira, uma garrafa de água, uma caixinha de fósforo, uma gota de maquiagem.

A partir dali, os sobreviventes arrastariam o corpo pelas vias da galeria de um jeito completamente automático, o olhar perdido, os pés em inércia. Não notariam a metamorfose sutil que embranqueceria seus braços e pernas, a resina que devagar substituiria o tecido de seu corpo, o cabelo que deixaria de ser em fios, mas assumiria a forma de um desenho talhado na cabeça. Ao final, estariam totalmente transmutados e, conduzidos pelo transe hipnótico do consumo, invadiriam as vitrines e assumiriam eles, então, o posto dos pálidos e estáticos manequins.

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