Lua Vermelha

Isabela encarava a mancha na calcinha com um espanto profundo. Era uma mancha pequena, provavelmente da extensão do seu dedo mindinho, mas capaz de gerar um tremendo rebuliço no interno da menina. Diante da visão vermelha-amarronzada, sua respiração ficava ofegante. O coração batia acelerado e, no silêncio do banheiro, soava alto. Ficou longos minutos estudando aquela mancha e se perguntando se não estaria enganada. Talvez tivesse se cortado. Talvez estivesse com alguma doença… Não podia ter chegado a hora. Ela tinha ouvido a avó falar que a menstruação viria quando ela estivesse perto dos 14, mas mal tinha feito 12. Não podia ser, não podia.

Lembrou na mesma hora de quando chegou para Isadora, sua irmã mais velha. No dia, a garota ficou cheia de si, desfilando pela casa com um ar de altivez, como quem tivesse recebido um presente que a tornava especial. Mas, depois, passou a enfrentar uma série de infortúnios: cólicas, dores de cabeça, indisposição… Para piorar, o sangramento trazia com ele uma lista de regras de conduta, que a avó, sempre ela, se encarregava de introduzir: “Não pode andar com o pé descalço, menina”, “Brincar na rua? Nem pensar!”, “Não vai ficar de papo com os meninos do vizinho, que agora você é uma mocinha”. A partir daquele momento, era como se algo tivesse se rompido, como se a irmã perdesse as delícias da infância e passasse a carregar o peso de ser adulta – e, mais do que isso, de ser mulher.

Isabela não se conformava. Por que havia sido castigada daquela maneira? Não podia ser menino, como o pai queria? Ser mulher era desgraça pura. Via como a mãe passava o dia lavando roupa, cozinhando, limpando a casa. O pai, caminhoneiro, vivia na estrada e, quando chegava, se mostrava mais preocupado em se fartar com a comida da mulher, em bater papo com os vizinhos e jogar sinuca no bar do que em dar atenção à família. Já a mãe não tinha a mesma liberdade. Se se demorava na casa de uma amiga, a avó logo ia lhe chamar, dizendo que mulher direita devia ficar em casa, cuidando dos filhos. Se vestia uma roupa mais curta, mesmo em dias de calor, tinha que lidar com julgamento de todo o bairro. Sair de casa à noite, nem pensar, nem se fosse para ir à missa. E não era diferente com as tias, com as primas e mesmo com a avó: todas pareciam ter a vida e os sonhos limitados por este corpo de mulher. Era por isso que aquela mancha na calcinha não era só uma mancha na calcinha – era a anunciação de que um destino vazio de realizações também esperava por Isabela.

Mas, de repente, um estalo se deu na cabeça da menina: se ninguém soubesse que a menstruação tinha chegado, Isabela não teria que encarar aquele desenrolar sangrento tão cedo. Ela podia correr para o riacho perto de casa e lavar o rastro vermelho da calcinha. Depois, para deter o sangue daqueles dias, usaria um pedaço de remendo da avó, que pegaria à noite, quando a velha estivesse dormindo. No final, era só jogar o trapo sujo no rio. Era isso! Não seria tão difícil encobrir a visita inesperada…

Animada com o plano, a menina se vestiu rapidamente, deixou o banheiro e passou correndo pela sala da casa. A avó, que costurava perto da janela, tomou um susto com o remoinho dos cabelos encaracolados da neta, e perguntou sobressaltada:

– Onde é que você vai, menina?

– Vou brincar com o Ronaldo, vó. Volto pro jantar!

Na mentira, Isabela sentiu o coração apertar dentro do peito. Não só porque não gostava de mentir, mas também porque sabia que, se o seu segredo fosse revelado, os dias de pega-pega, pique-esconde, amarelinha e bola de gude com Ronaldo chegariam ao fim. “Que sofrimento!”, pensou, “Isso não pode acontecer!”. E assim, após fechar a porta de casa, começou a correr, batendo um pé após o outro sobre o chão de terra. Seu corpo cortava o vento com graça, deixando para trás as casas dos vizinhos, a venda da esquina, a escola e a igrejinha, até ver o riacho, ao final da rua.

Para chegar até lá, era preciso atravessar uma faixa de vegetação cheia de gravetos soltos que podiam fincar na sola do pé. Naquele ponto, Isabela desacelerou, recobrou o fôlego e passou a caminhar com calma, escolhendo pacientemente onde aplicar o próximo passo. Só que, quando encontrava o final do mato, a menina teve uma visão que a paralisou: havia uma índia sentada de cócoras à beira do riacho. A moça assistia à descida do rio imersa em tranquilidade, enquanto mergulhava as mãos na água e trazia o líquido até a boca, passando também pelo rosto, pelos longos cabelos e pelos braços. Com aquela espécie de banho, seu fino vestido de algodão se colava ao corpo, revelando curvas de uma beleza comovente.

Isabela, que olhava tudo de uma moita, se impressionou com a beleza da mulher e desejou, um dia, ser dona de um encanto parecido com aquele. E no meio dessa embriaguez de admiração notou: do meio das pernas da moça escorria um fino fio de um líquido vermelho, que construía um caminho até as águas do riacho. Isabela ficou tão estupefata que teve que levar as mãos à boca para não esboçar nenhum ruído. A índia sangrava como ela, mas o mais assustador é que não fazia nada para conter aquele sangue. Ela lavava o dorso, a pele, mas não varria o caminho vermelho de si. Ao contrário, era como se esperasse pacientemente que o corpo vertesse o sangue que precisava verter, como se tivesse uma sabedoria profunda que lhe permitia compreender a necessidade de suas entranhas e, mais do que isso, como se a respeitasse.

A menina ficou zonza com aqueles pensamentos e se deixou hipnotizar pela visão do banho da mulher. Passou longos minutos vendo a cena e, acomodada ao lado de um pequeno arbusto, mal percebeu quando a brisa pesada começou a cerrar seus olhos e conduzi-la a um delicioso estado de descanso.

***
Isabela sonhou e, nesse sonho, ela via a si mesma acocorada na beira do rio. De pernas abertas, não tinha vergonha do próprio sangue, mas orgulho, assistindo sorridente à medida que o filete vermelho deixava seu corpo e chegava à água azulada do riacho. A seu lado, de repente, uma presença conhecida: sua mãe, como ela, agachava-se sobre a faixa de terra úmida e permitia que a menstruação seguisse seu curso. Logo, sua irmã, suas primas e suas tias também se aproximavam, todas sorridentes, com olhos serenos e brilhantes, encontradas com o que tinham de mais verdadeiro dentro de si.

Quando Isabela olhou para a margem oposta do rio, o que viu foi maravilhoso: dezenas de mulheres ocupavam aquele espaço, sangrando juntas e banhando-se nas águas do riacho, compartilhando uma intimidade ancestral. No meio delas, estava aquela índia que Isabela vira na beira do rio, cantarolando uma canção familiar. Era noite e uma enorme Lua Cheia brilhava no céu, iluminando as protuberâncias dos corpos das mulheres e revelando sorrisos que desabrochavam no rosto de cada uma. Naquele momento, Isabela olhou para a mãe admirada, lembrando da delicadeza da sua felicidade.

Ao final do sonho, a Lua, que irradiava um brilho prateado, passou a se transmutar: o tom claro foi dando lugar a uma cor escura, pulsante e avermelhada. Ali, sob aquela Lua, ao lado daquelas mulheres, Isabela sabia que havia encontrado um lugar seguro para sonhar.

***

A menina acordou do cochilo com o barulho de crianças que brincavam de pular e jogar água umas nas outras no riacho. A índia já não estava lá, muito menos o filete de sangue que ela deixava na margem de terra. Isabela se levantou devagar, como se ainda despertasse do sonho, e foi caminhando sem pressa até sua casa. Surpreendeu-se com o sentimento que a tomava, então. Não havia mais vergonha ou medo. Não havia a repulsa, o desejo de não ser mulher. Em vez disso, Isabela sentia que o seu corpo e o seu sangue faziam parte de algo maior, algo que começara muito antes dela e que continuaria depois que ela deixasse este mundo.

Ela sabia que nem sempre seria fácil, mas de alguma forma intuía que, quando precisasse, haveria um lugar para onde voltar. Bastaria seguir o caminho que começava em seu útero e terminava ao lado de centenas de mulheres, iluminadas por uma imensa Lua Vermelha.

*Publicado na Fanzine #2 da Casa de Lua.

Anúncios