Na cozinha

Uma mãe ou um pai pode ter ensinado uma filha ou um filho a cozinhar ou passar roupa. Uma mãe ou um pai pode ter ensinado uma filha ou um filho a arrumar o cabelo ou a se limpar de forma apropriada após o banheiro. Mas nunca ouvi falar de uma mãe ou de um pai (ou de qualquer outro parente) que tenha ensinado uma filha ou um filho (bem como qualquer outra pessoa) como proceder quando se encontra um bicho na comida.

Na primeira vez em que aconteceu comigo foi como naquele poema do Bandeira, dos namorados – fiquei só olhando. Durante vários minutos estudei os movimentos sinuosos que impulsionavam o corpo verde da lagarta para cima, depois novamente para baixo, sobre a tábua de cortar carne, e então alguns milímetros para a frente. Fiquei perplexa com a força daquele bicho e com a coreografia asquerosa que ele performava bem ali, debaixo do meu nariz.

Passado o choque, senti que era a hora de tomar uma atitude, caso contrário o bicho poderia se perder pela cozinha, se esconder no pé de couve ou entre as peras aninhadas na fruteira. Mas aí surgiu o maior dos dilemas: como capturá-lo? E, quando capturado, o que fazer com ele? Jogar no lixo? Atirar na privada? Cortar com a faca e encerrar o episódio de modo sangrento?

Precisei de tempo para planejar meus próximos passos e buscar o material necessário. Com um guardanapo, enganei a lagarta, deitando a folha ao lado da tábua, como um prolongamento do espaço. Ainda naquela dança macabra, ela subiu sobre o papel, lenta e indiferente, ignorando o fato de que aquele seria o meio de transporte para o seu fim.

Quando ela estava completa naquela nova plataforma, com um gesto vigoroso e o corpo arrepiado de nojo, atirei-a no ralo da pia, abrindo a torneira em seguida. De uma distância razoável, longe o bastante para me sentir protegida e próxima o suficiente para enxergar, assisti à agonização do bicho. Enquanto ele se debatia, eu sentia o som dos meus batimentos cardíacos nos ouvidos e notava a rapidez com que o sangue percorria meus braços, tronco e pernas (como, afinal, deve acontecer aos matadores de aluguel, serial killers e outros criminosos).

É claro que, depois da chacina, não me restava nem um pingo de fome ou de vontade de fazer qualquer coisa que fosse. Um dia perdido – o que provavelmente não teria acontecido caso eu tivesse aprendido como proceder quando encontro bichos na comida.

Outro dilema ético é quando, em um almoço de trabalho ou com os amigos, você encontra um bicho no meio do prato. Note que aqui o problema não é só dar de cara com um ser vivo entre folhas de alface e pedaços de beterraba ralada. O pior é se deparar com um problema desses E uma plateia, que certamente vai decidir o futuro da sua reputação por esse episódio: ouse jogar a larva fora com estardalhaço e vai estragar o almoço da mesa toda; ignore a presença indesejada e retome a refeição e ficará para a posteridade como um nojento.

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