A gripe

A gripe é a oportunidade perfeita para experimentar o nível mais baixo da dignidade humana. E é irônico – somos seres capazes de criar edifícios imensos, máquinas que nos levam à Lua ou às profundezas do oceano, estradas que cortam o mundo todo, técnicas cirúrgicas que podem mudar completamente o nosso corpo, mas, ainda assim, estamos suscetíveis à gripe.

Penso que, do ponto de vista da criação, é uma tacada de mestre. Supondo que exista um criador do céu e da terra, um criador que inventou os seres humanos, esses bichinhos tão desamparados e tão arrogantes – o que melhor para nos colocar em nosso lugar de insignificância do que essa fragilidade diante de um organismo tão microscópico?

Também tenho a impressão de que a gripe é quase um comando de “reiniciar” que você não pediu, aquilo que vem quando nada mais dá conta, quando você não dá conta de mais nada – quando o corpo se cansa de você e padece. E, olhando por esse lado, a gripe é também privilégio. É poder tomar chá, canja e o que mais quiser, se estirar no sofá, faltar na aula ou na reunião, dormir até mais tarde, pedir carinho e atenção. Na gripe pode tudo.

E quando ela passa, quando você levanta da cama e nota o nariz seco, o corpo disposto e os movimentos ágeis, a gripe é renovação. Nada melhor para se reencontrar com o privilégio de ter um corpo saudável do que experimentar alguns dias de um corpo doente.

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