A batata

Quando viajavam as duas, a mãe se encarregava de tudo: escolhia o destino, separava as roupas limpas, fazia as malas. Lembrava de cada detalhe – etiquetava as bagagens, levava remédios para mals variados, comprava absorvente (para o caso de a viagem casar com a menstruação da filha e ela esquecer os modes), agendava o transporte até o aeroporto, cancelava o jornal e avisava os porteiros.

Para a menina, sobrava só uma tarefa: limpar a cozinha de tudo o que pudesse estragar – uma atividade menos importante, que por isso mesmo era confiada a ela. Mas a garota abraçava o exercício cheia de felicidade. Sentada à mesa da cozinha, podia levar um dia inteiro na inspeção. Primeiro, apanhava com as duas mãos cada cebola moribunda da fruteira, trazendo a hortaliça a poucos centímetros da ponta do nariz. Com delicadeza, apalpava a bola esbranquiçada buscando desníveis e machucados. Ao mesmo tempo, os olhos visitavam cada pedaço, à procura de sinais de putrefação.

Por fim, com a cabeça tombada para trás, a menina fechava os olhos e se permitia aspirar profundamente o aroma da cebola. Era a hora do veredito final: atirada ao prazer de experimentar os próprios sentidos, ela decidia se o alimento ainda estaria bom o bastante para permanecer na cozinha ou se, ao contrário, iria para o lixo.

Depois das frutas e verduras, havia mais trabalho a fazer: ela examinava o que tinha restado nos armários e nas outras partes da cozinha, olhando, tocando e sentindo minuciosamente os ovos aninhados na porta da geladeira, o pão esquecido sobre a mesa, a caixa aberta de leite. Só terminava quando todos os produtos tivessem sido avaliados.

Aos poucos, a garota foi se tornando uma verdadeira especialista na arte de compreender o ciclo de vida dos itens alimentícios. Sabia que algumas frutas podiam resistir bravamente a cinco ou seis dias se fossem mantidas refrigeradas na parte mais funda; outras eram mais frágeis e delicadas, e não podiam sobreviver ao período nem que estivessem verdes. Os laticínios também eram intrigantes: se fosse deixada por uma semana, uma peça de queijo prato estragaria, enquanto um pedaço de gorgonzola parecia adquirir uma consistência ainda melhor depois de dois ou três dias.

Sua experiência sensorial com os alimentos permitia que ela acumulasse mais e mais informações, o que se traduzia em sucesso absoluto na execução da tarefa: no retorno de cada viagem, os itens da cozinha recebiam mãe e filha praticamente da mesma forma – com aspecto novo e prontos para o consumo. Quando a mãe pisava no ambiente e encontrava as maçãs ainda fresquinhas, os pimentões verdes com cascas intactas e os vidros coloridos da geladeira sem traço de bolor, abria um sorriso único, um sorriso de quem constata que sim, haveria esperança para a filha, ela levava jeito para alguma coisa. Da porta da cozinha, a menina observava a reação da mãe, sentindo-se preenchida por um orgulho muito terno de si mesma.

Mas em umas férias de verão, depois de viajarem mais de 12 horas de ônibus, mãe e filha entravam no apartamento quando foram surpreendidas por um cheiro de um azedume inconfundível. Algo tinha apodrecido ali dentro. Parecia um pesadelo em que tudo se desenrolava em câmera lenta. Calmamente, a mãe pousou na porta da casa as duas malas que segurava e caminhou até a cozinha, a fim de descobrir que tipo de desastre desencadeava aquele fedor. A menina, meio abobada, quase em estado de choque, perseguia os passos da mãe consumida por um desespero desconhecido.

A mulher passou os olhos pela bancada de mármore e abriu a geladeira. Inspecionou cada um dos itens guardados ali: um pote fechado de requeijão, um suco de caixinha lacrado, um melão inteiro; tudo perfeitamente conservado. Seguiu analisando todo o espaço, até que se deteve: no encontro exato entre um azulejo do chão da cozinha e a lateral de madeira do armário, havia um objeto esquecido. Ao se aproximar, teve que cobrir o nariz com uma das mãos, tamanha a potência do aroma. Era aquilo.

Ficou olhando alguns segundos até perceber que se tratava de uma batata – em vez de amarelado, o tubérculo tinha ganhado um tom entre o marrom e o preto; sua forma, antes robusta e resistente, se tornara pastosa, com alguns pedaços já transformados em um líquido viscoso e escuro, que havia enegrecido o piso claro da cozinha e a pátina do armário.

A mãe transferiu o olhar para a filha, que olhava tudo estupefata, com a boca aberta, e gritou:

­– Mas você é mesmo uma besta, Cláudia! Vê se trata de limpar essa nojeira!

Assim que o batuque dos saltos deixou o espaço, a menina se ajoelhou e, com as mãos em concha, recolheu a batata largada no canto da cozinha. Era nojenta, era fedida, era a prova de que a garota tinha falhado. Mas o que mais a surpreendeu naquele momento foi a afeição que brotou em seu peito por aquela batata velha e azeda. Seus dedos passeavam timidamente pela superfície do tubérculo, enquanto os olhos saudavam aquele encontro com um brilho diferente. A garota, que sempre contemplava formas firmes e brilhosas, agora descobria outro toque – a rugosidade da casca envelhecida, a maciez do miolo estragado, a irregularidade do contorno consumido por micro-organismos.

Fechou os olhos e se deliciou com aquela nova sensação. Sentia-se profundamente enamorada por aquele estado sincero e libertador da putrefação. De alguma forma, no meio daquela miscelânea de líquidos e cheiros, ela podia se ver ali. Podia entender a beleza de ser uma batata podre, a beleza de toda imperfeição.

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