Na praia

Lorena puxou a embalagem do sorvete e o levou até os lábios. Imediatamente sentiu o sabor doce, a textura lisa do picolé sobre a língua. Fechou os olhos como se quisesse estender a sensação na boca e, quando os abriu, notou que duas meninas do guarda-sol vizinho a observavam. As garotas deviam ter onze anos, como ela, mas eram magras e morenas de sol. Lorena era diferente: seu corpo enchia o maiô listrado, formando dobras nas costas e faixas de gordura que lutavam para aparecer sobre o elástico da roupa de banho. Sua pele tinha um tom branco pálido, que combinava com o picolé de coco que segurava.

Lorena assistia enquanto uma das meninas cochichava no ouvido da outra, o olhar das duas parado nela. Imaginou que palavras soprariam. Será que falavam sobre o maiô, inadequado para o seu corpo redondo? Será que a chamavam de gorda, de baleia? As garotas riam e se entreolhavam enquanto o picolé se desfazia sobre os dedos de Lorena. Gotas grossas e brancas escorriam pelo palitinho de madeira, acumulando-se sobre a areia na forma de uma poça leitosa. Observada daquele jeito, Lorena não conseguia esticar a língua e corrigir o desabamento do sorvete. Só olhava as meninas, espiava a poça, imaginava as palavras…

Lorena fechou os olhos com força e, de repente, estava aninhada sobre um pequeno barco, navegando no oceano. Não havia nada no horizonte, nem o traço de uma ilha, nem o sinal de uma existência. Ninguém para observar Lorena, ninguém para julgar seu corpo, para falar das suas formas.

Sobre o mar infinitamente azul, a garota passou a ver placas de gelo: primeiro pequenas, translúcidas; depois maiores, parecidas com diamantes gelados que despontavam no horizonte. Em questão de segundos, as pedras de gelo cercavam todo o barco, como um abraço frio que sustentasse a presença de Lorena.

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Sentada no meio do barquinho, envolvendo os joelhos com os braços, a garota começou a estudar a paisagem. Se divertia vendo como o ar que soltava aos poucos pela boca se transformava em fumaça. Olhava para aquela branquidão toda e se enchia de paz. Mas, de repente, entre o tom monótono do mar, Lorena avistou um enorme vulto negro que parecia se aproximar da embarcação. A princípio pensou que fosse uma mancha de óleo, mas, à medida que chegava mais perto, percebeu que se tratava de um animal de dimensões inimagináveis. O bicho tocou o barco, balançando o chão sobre os pés de Lorena. Em seguida, levantou um rabo escuro e expeliu uma mistura de água e ar que viajou alto no céu. Era uma baleia.

Lorena se debruçou sobre a lateral para ver melhor, para assistir, com os olhos banhados de lágrimas, aquele imenso corpo azulado que subia e descia ao sabor da respiração e das ondas do mar. A menina se encheu de coragem e estendeu uma mão na direção da baleia. Logo alcançou a carcaça do bicho, encontrando uma carne morna e macia, diferente do que imaginava. Abriu os dedos vagarosamente, acariciando a pele da baleia. Sobre a sua mão, o animal se continha silencioso, como se desfrutasse da delicadeza do toque. Lorena ficou pensando na solidão daquela baleia, perdida no oceano gelado. Não devia estar acostumada com gestos de carinho. Nisso elas também eram parecidas.

A menina se afundava nesses pensamentos quando, de súbito, com um sacudir de nadadeiras, a baleia derrubou a embarcação e mergulhou fundo no oceano. Lorena foi junto, presa ao corpo do animal, viajando em alta velocidade. Sua pele leitosa pressionava o couro da baleia, permitindo que Lorena sentisse o movimento do coração acelerado e potente – de um tamanho de um fusca, ela ouvira uma vez.

De tempos em tempos, a baleia precisava esgueirar-se por sobre uma onda para apanhar mais um bocado de ar. Nesses momentos, Lorena conseguia encontrar os olhos da criatura – olhos pequenos e escuros, como caroços de fruta. Sentia que podia entender a baleia e que a baleia podia entendê-la. Elas podiam nadar juntas até cansar, pois haviam estabelecido uma ligação profunda, de uma ternura muito doce. Doce como um picolé de coco derretido, aninhado entre montes de areia.

Lorena fechou os olhos e deitou na cadeira de praia, os braços cruzados sobre a cabeça, servindo de travesseiro, para aproveitar melhor o embalo daquele passeio. Nas horas tensas, em que nada fizesse sentido e a vida parecesse escapar pelo ralo, Lorena sabia que podia nadar agarrada às nadadeiras de uma baleia.

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*Publicado originalmente na minha newsletter Desacontecimentos Cotidianos. Assine aqui.

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