Neste Dia das Mulheres, vamos defender nossa voz e combater o medo

Na semana passada, eu tive um sonho ruim. Sonhei que, por causa das minhas ideias e por causa do que eu escrevia, era perseguida, agredida e tratada com violência. Acordei apavorada. Principalmente porque o que foi um sonho para mim é uma realidade para muitas mulheres.

O assunto ganhou a mídia. Em 20 de fevereiro, o jornal norte-americano Washington Post trouxe à luz a questão: mulheres que escrevem sobre feminismo, principalmente na internet, têm de lidar com tantas ameaças e tanta agressividade que algumas começaram a abandonar o posto. E trata-se de um momento ambíguo nos Estados Unidos porque, por um lado, há uma série de celebridades apoiando o feminismo, como as comediantes Lena Dunham e Amy Poehler, as cantoras Beyoncé e Taylor Swift e as atrizes Emma Watson e Patricia Arquette, mas, por outro, a vida das mulheres que decidem escrever sobre o tema só fica mais difícil.

Poucos dias depois, em 24 de fevereiro, a Folha abordou a situação das feministas brasileiras, mulheres como a jornalista Juliana de Faria, do Think Olga, a escritora Nádia Lapa e a professora Dolores (Lola) Aronovich. Todas foram duramente intimidadas e sofreram algum tipo de assédio simplesmente por defenderem o seu ponto de vista feminista nas redes. Sem mencionar a jornalista Ana Freitas, que tem sido vítima de duras ameaças e de um processo impressionante de bullying pela internet e fora dela depois de ter escrito, aqui para o Brasil Post, um texto sobre machismo em fóruns virtuais.

O que fica de toda essa intimidação? O medo. E o medo é muito preocupante. Não só pelo que ele causa emocionalmente e fisicamente a todas essas mulheres, mas porque o medo cala. Quem escreve pensa em desistir; quem ainda não começou pensa em nunca começar. O medo desencoraja, o medo nos impede de conhecer milhares de vozes que têm muito a dizer.

Esse é um ponto crítico sobre o qual tenho pensado cada vez mais. Hoje, dedico parte da minha vida ao #KDmulheres, iniciativa que nasceu na ONG Casa de Lua e que tem como objetivo promover a visibilidade e o empoderamento das mulheres que escrevem (se quiser saber mais sobre a questão, pode ler estes artigos publicados também aqui no Brasil Post: Em defesa de uma festa literária inclusiva e Onde estão as mulheres da literatura?).

Nesse meio, muitas mulheres se questionam se são boas o bastante, se estão prontas, se sabem mesmo do que estão falando – ao ponto de muitas desistirem ou passarem a vida inteira com os textos na gaveta. Falo por mim, que levei muito tempo para me assumir como escritora, e pelo que vejo diariamente: mulheres in-crí-veis, dessas que a gente admira profundamente e que são ótimas no que fazem, duvidando do seu potencial.

O que tem por trás disso? A falta de representatividade, o fato de vermos poucas mulheres ocupando espaços de fala, todos os estereótipos que aparecem quando falamos em mulheres que escrevem… E tem mais uma coisa: o medo. Mas, além do medo, dessa violência e dessa perseguição podem vir também coragem e vontade de seguir em frente. Então, neste Dia das Mulheres, meu desejo é um só: que tenhamos força. Vamos olhar para as mulheres que estão sendo intimidadas e vamos acolhê-las. Essas mulheres precisam ter voz – por elas e pelas muitas outras que elas representam. Vamos nos unir e nos defender – não só nós, mulheres, mas nós, sociedade como um todo. É urgente.

*Publicado no Brasil Post, em http://www.brasilpost.com.br/martha-lopes/neste-dia-das-mulheres-va_b_6811118.html.

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