Escrever ou não escrever: o desafio que é viver de literatura

Ando pensando sobre as contradições do exercício de escrever e sobre tudo o que ele impõe na nossa vida. Tendo a achar que a escrita sempre aparece como um comichão, uma válvula de escape, uma prática que ajuda você a contar as histórias que precisam ser contadas ou a exorcizar os demônios internos. Aí é lindo: você senta, escreve e – ufa! – se sente aliviado depois, sem se importar muito com a qualidade do resultado ou com o que vai fazer daquilo.

Mas acho que, com frequência, quem escreve começa a olhar para a história que brota e sente vontade de dividir com o mundo – seja em um blog, uma revista ou um livro. O que era só pulsão de escrever se torna uma urgência. Logo, você tem a necessidade de fazer só isso da vida, construir as histórias que, na sua cabeça, precisam ser construídas, comunicar ideias para o mundo, lapidar a sua voz.

É nesse ponto que reside uma das maiores contradições: você quer transformar o ato de escrever em uma profissão, você quer viver do que você escreve, mas para viver do que escreve precisa estar consolidado como escritor, o que só vai acontecer se você tiver tempo para escrever, para divulgar, para construir sua escrita e sua imagem. Mas as contas não esperam, por isso você precisa trabalhar em outra coisa, que pode não ter relação com a escrita, tendo pouco tempo para escrever e para se construir como escritor… Entende onde quero chegar?

A questão da insustentabilidade da escrita se coloca diariamente para quem quer fazer dessa a sua profissão – até porque, com poucas exceções, publicar um livro não significa que ele vai vender a ponto de sustentar o autor. A maioria dos escritores tem de buscar outras vias de obtenção de renda, como dar cursos, palestras, ter alguma atividade acadêmica ou atuar no jornalismo. Uma pesquisa informal publicada na Folha de S.Paulo retrata bem esse cenário no Brasil.

Muito se diz que esse problema está relacionado ao pequeno número de leitores por aqui, mas a inviabilidade da profissão é algo que sempre permeou a literatura e, em alguns casos, deu até certo charme a ela. Ou vai dizer que não tem seu romantismo a vida nômade e pobretona de Jack Kerouac e seus amigos em “On the Road”, ou a boemia miserável de Henry Miller em “Trópico de Câncer”?

Só que, na urgência das grandes cidades, nessa vida que nos obriga a ter casa própria, carro, internet e TV a cabo, é a dureza do cotidiano que se coloca para o escritor, quase como se desse um sinal constante de que a escrita não vale a pena. O mundo não precisa que você escreva, e nem o ajudará a fazê-lo. Ou como diz Virginia Woolf, em “Um teto todo seu”:

Escrever uma obra de gênio é quase sempre um feito de prodigiosa dificuldade. Tudo se opõe à probabilidade de que ela aflore íntegra e completa à mente do escritor. Em geral, as circunstâncias materiais opõem-se a isso. Os cachorros latem; as pessoas interrompem; o dinheiro tem que ser ganho; a saúde entra em colapso. Além disso, para acentuar todas essas dificuldades e torná-las mais difíceis de suportar, entra a notória indiferença do mundo. Ele não pede que as pessoas escrevam poemas e romances e contos; não precisa deles. Pouco lhe importa se Flaubert encontra a palavra certa ou Carlyle verifica escrupulosamente este ou aquele fato. Naturalmente, não irá pagar pelo que não quer. E assim, o escritor — Keats, Flaubert, Carlyle — sofre, especialmente nos anos criativos da juventude, toda sorte de perturbações e desestímulos. Uma imprecação, um grito de angústia eleva-se desses livros de análises e confissões. “Poderosos poetas em sua miséria mortos”, esse é o fardo de seu canto. Se algo sobrevive a despeito disso tudo, é um milagre, e provavelmente nenhum livro nasce íntegro e sem mutilações tal como foi concebido.

Sobre esse assunto, li um artigo interessante no jornal britânico The Guardian nesta semana, da escritora canadense Anakana Schofield. O artigo é de julho de 2013, quando o livro da autora, “Malarky”, estava prestes a chegar no Reino Unido. Ela começa contando que recebeu um adiantamento de 6.500 libras pela publicação da obra, o que parece bastante para os parâmetros de pobreza dela. No entanto, Anakana levara 12 anos para escrever o livro – 12 anos de extrema dureza, segundo ela, tendo que escrever no intervalo de tudo o que fazia. Que dinheiro, no mundo, será capaz de pagar esse trabalho que perdurou por mais de uma década sem remuneração?

Outro texto que caiu na minha mão sobre o tema foi o da escritora norte-americana Anna Ross, em que ela mostra como tudo isso se acentua quando é uma mulher que escreve. Relata, por exemplo, que, ao longo da escrita de um dos seus livros, tinha que aproveitar os momentos de cochilo da filha, o percurso do ônibus, qualquer brechinha entre o trabalho e as atividades do dia, que não podiam ser deixados de lado, para que ela sentasse e escrevesse tranquilamente (#sqn).

Fico pensando, então, que loucura é essa que nos move, que nos faz trabalhar de graça, que nos desafia e desgasta até a última gota de energia possível. É inegável que, por um lado, com a cultura das redes sociais e essa necessidade constante de exibirmos nossa opinião sobre tudo, vivemos um boom da escrita – os grupos e cursos para escritores estão cada vez mais cheios, mais e mais pessoas querem ter seu blog, publicar seu livro e construir suas histórias. Mas, por outro lado, acho que, diante de todas as dificuldades, persistirão aqueles que mantêm pelas palavras algo que não se explica, uma urgência quase sobrenatural. É uma doença que dá na pessoa, diria uma amiga minha. Acho também que é paixão. Não daquelas plácidas de casamento longo, mas daquelas avassaladoras, que a gente tenta, mas custa muito para apagar.

* Publicado no Brasil Post, disponível em: http://www.brasilpost.com.br/martha-lopes/escrever-ou-nao-escrever-_b_6987226.html.

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