No motel

Eu nunca tinha entrado num quarto de motel. Não era por ser santinha, não. É que, quando eu pensava nesse tipo de lugar, sempre imaginava uma mistura de lençol sujo, carpete empoeirado e uma daquelas cortinas de pano já bem desbotadas. Mas, depois que fechei a porta atrás de mim, fiquei chocada. Era um espaço muito branco e neutro. Tinha uma cama grande no meio, com um criado-mudo de cada lado. Os dois criados-mudos estavam vazios e fiquei pensando que talvez não fosse por acaso: assim a pessoa podia colocar ali vibrador, camisinha, gel de massagem…

Em todo o espaço, a única coisa que chamava a atenção era um quadro que ficava em cima da cama. Sentei numa poltrona que ficava em um dos cantos para olhar melhor. A tela mostrava um conjunto de ondas pintadas em vários tons de laranja. Pareciam umas labaredas – um “fogo” para inspirar os casais que entravam ali. Naquele momento, as labaredas faziam um contraste curioso: bem embaixo do quadro, totalmente apagado, o Leandro dormia um sono profundo, um sono encomendado de uísque e remédio.

Era engraçado ver aquele homem grande, aquele homem que me metia tanto medo, deitado assim na cama. Parecia inofensivo, incapaz de me receber com uma bolacha na cara, um soco no estômago, uma trepada forçada. Um leão dormindo com cara de gatinho. Mas eu conhecia aquele homem muito bem, há mais de 20 anos, e sabia o que ele podia fazer. Só que fui ingênua e demorei para perceber onde isso ia me levar. O pessoal não fala que quando a gente se apaixona fica cega? Foi o que aconteceu comigo.

Quando comecei a namorar o Leandro, todas as pistas estavam lá, bem na minha cara. Ele era carinhoso, romântico, me levava para passear na praça, para ir ao cinema, mas, bastava ter um tempo livre, ele se metia na sinuca ou no boteco do nosso bairro. Ficava ali várias horas e, no fim da noite, sempre arrumava confusão.

Teve uma vez que saiu feio na mão com uns caras que ganharam dele no bilhar. Quebraram o lugar inteirinho e, depois disso, o Juarez, que era dono da sinuca, proibiu o Leandro de entrar ali. Lembro que, no dia seguinte à briga, ele chegou na minha casa com uma ferida enorme no rosto, a testa costurada, o olho inchado… Minha mãe ficou apavorada e veio me falar para tomar cuidado. Mas eu não ouvi. Achava que não tinha perigo nenhum. Achava que comigo ele não teria coragem.

O primeiro tapa não demorou muito para acontecer. A gente devia estar casado há uns quatro, cinco anos. Era um sábado, e ele tinha passado o dia todo bebendo com os amigos. Eu perdi a paciência e me arrumei para dar uma volta com a minha irmã. Tinha vestido uma saia jeans e um top rosa, que deixava um pedaço da barriga de fora. Quando me viu saindo assim, ele não teve dúvida: meteu a mão na minha cara direto. Pá!, um tapa estalado na bochecha. Caí em cima do chão de taco meio zonza, sem acreditar direito. Encostei a mão bem no lugar em que ele tinha batido e senti a pele quente ainda, latejando. O Leandro me olhou espantado, como se não fosse ele que tivesse feito aquilo, como se um outro homem tivesse se apossado do corpo dele e me agredido.

Passei alguns segundos tentando ler o significado de tudo aquilo nos olhos do Leandro. Pô, eu amava o cara. Amava de verdade. Mas, de repente, eu olhava naqueles olhos escuros e não via nada. Nem uma sombra da pessoa que ele era, só um bicho feroz e assustado, que a gente nunca sabe como vai agir. Depois disso saí correndo pro quarto e passei o resto do dia trancada, pensando se eu ia embora ou se pedia ajuda pra minha mãe. Eu me sentia perdida. E aí, no dia seguinte, ele veio me trazer umas flores e pedir desculpas. Eu perdoei.

Claro que a situação só piorou. Nos últimos tempos, ele já dava sem dó. A vez mais horrível foi há uns meses, quando o time dele perdeu o último campeonato. Ele me surrou pra valer, de cinta. Me batia com tanto ódio que parecia que a culpa tinha sido minha. Eu tinha certeza que ia morrer. Uma hora comecei a alucinar, a ver coisas. Minha mãe me pegando no colo, o padre da nossa paróquia pedindo pela minha alma… E, no meio de tudo o que eu vi, eu vi esse plano: contratar uma prostituta, pedir pra ela dopar o Leandro e jogar ele num quarto de motel para me esperar. Parecia tão fácil, tão libertador. Me prometi que se eu sobrevivesse eu ia fazer aquilo.

E lá estava eu. Caminhei até a minha bolsa, jogada no criado-mudo, e peguei a faca que eu tinha trazido. Nem pensei muito: de uma vez só enfiei a lâmina no pescoço do Leandro, num ponto que pulsava. O sangue espirrou morno no meu rosto, e eu fui arrastando a faca para o outro lado da carne, até deixar um pedaço grande de tecido vermelho aparecendo. O Leandro nem acordou. Ficou jogado lá, perdendo sangue até a vida ir embora de vez, a poça vermelha ensopando a cama.

Antes de fugir, passei no banheiro para lavar a faca e guardar de novo na bolsa. Vesti a peruca loira que eu tinha usado para entrar no lugar e voltei para o carro, para pegar a estrada. Eu nem sabia para onde eu ia, mas tinha um mundo inteiro me esperando. Era a primeira vez que eu entrava num quarto de motel.

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