O destino em fios de fettuccine

Desde os 5 anos, todo domingo de manhã, Gina cumpria o mesmo ritual: despejava farinha sobre a mesa da cozinha, juntava alguns ovos, sovava a mistura, abria a massa com um rolo centenário e cortava meticulosamente os fios do fettuccine que a família Troncarelli comeria no almoço.

Só na primeira vez, entre os braços miúdos de menina, Gina teve o auxílio das mãos da mãe. Ela convidava a filha a imitar seus movimentos, enquanto soprava orientações que Gina guardaria para sempre – “coloque os ovos neste ponto”; “não deixe de amassar agora”; “misture com o garfo”. A menina assimilava cada passo com perfeição e, em pouco tempo, mostrava tanta destreza na tarefa que a mãe achou melhor sair de cena e deixar a garota assumir o preparo da tradicional refeição da família.

Gina ficou satisfeitíssima diante da decisão da mãe. Contava os dias para o domingo chegar, quando despertava com o raiar do sol para cozinhar em silêncio, horas antes de tios, avós, primos e irmãos preencherem o espaço com corpos e vozes. Assim, podia passar longos minutos afundando as mãos na farinha, passeando o rolo sobre a bola de massa, dando forma aos fios de fettuccine.

farinha
Era tão intenso que só ali, plantada sobre a bancada de madeira da cozinha, Gina sentia encontrar seu lugar no mundo. E bem em um desses momentos, quando Gina tinha 10 anos, algo misterioso aconteceu: em uma tira recém-cortada de fettuccine, enxergou Pietro, seu irmão do meio, partindo em direção a outra cidade. Era uma espécie de visão, não como um sonho ou um pensamento, que se fazem do lado de dentro da cabeça, mas como algo externo – as cenas de um filme projetado sobre os fios do macarrão.

Ficou com as imagens na cabeça por dias, pensando de onde teriam vindo. Seria o cansaço ou o estômago vazio que fizeram Gina enxergar tudo aquilo? Mas, exatamente uma semana depois, a menina teve a confirmação que esperava: Pietro entrou em casa transbordando de empolgação, anunciando que deixaria o povoado para assumir um trabalho em uma cidade vizinha. Gina, do outro canto da sala, ouvia tudo com um olhar matreiro. Ela sabia, então, que tinha algo de especial.

E sua longa carreira na vidência estava apenas começando. Com frequência, passaria a ver o futuro nos pedaços da massa que abria aos domingos. Previu a viagem de uma prima, o nascimento do primeiro sobrinho, uma chuva que destruiria a plantação. Aos 15, enxergou a morte do pai, previsão que não dividiu com ninguém, e depois viu o longo luto da mãe e o momento em que a família se recuperaria da dor.

Aos 17, Gina teve a primeira visão consigo mesma: enxergou-se em uma festa, vestindo uma saia de flores miúdas e uma blusa de seda. Ali, batendo palmas ao som de uma canção antiga, avistaria um rapaz esguio, de olhos azuis semiguardados por uma mecha de cabelo negro. Ela intuía que daquele encontro floresceria um sentimento que não conhecia, mas com o qual sonhava havia muitos anos.

ovos
Corroída de ansiedade, preparou-se com todo o esmero para a primeira festa da igreja naquele ano. Ela sabia exatamente em que minuto conheceria Paolo, só não sabia que, ao encostar seu corpo no dele, sentiria como se chegasse a um lugar de onde não conseguiria mais voltar. E como haveria de saber? Foi invadida por uma paixão sem precedentes. E, depois daquele primeiro encontro, outros vieram – na praça, ao portão, nas margens do rio –, todos combinando silêncios constrangedores e juras de amor.

Quanto mais se viam, mais Gina sentia que mergulhava mais fundo em Paolo, que descobria uma vontade imensa de partilhar a vida com alguém. Até que, em uma tarde de verão, os dois num parque, Paolo confidenciou o mesmo: ele queria se casar com Gina. Era chegada a hora de pedir a mão da moça à sua família.

No entanto, no dia combinado, Paolo não apareceu – nem no próximo, nem nunca mais. Gina passou semanas plantada na janela, observando o movimento da via e buscando em cada vulto a presença do namorado. Mas nada. Depois de alguns dias, soube que Paolo deixara o povoado para se casar com uma moça rica de uma cidade vizinha.

Foi uma desilusão imensa. Tão grande que Gina se atirou em uma espécie de luto. Ela passava dia após dia deitada na cama. Mas, no domingo que se seguiu, acordou cedo como sempre, separou os ingredientes para a massa e ficou parada uns minutos, pensando. Não deixava de ser irônico que ela tivesse previsto o futuro de tanta gente, mas não tivesse visto justamente a decepção com Paolo. Será que o sentimento teria nublado a vista de Gina?

Resolveu derramar um pouco da farinha sobre a mesa e, devagar, foi acariciando os flocos aveludados, colocando água sobre eles para uni-los. As mãos, como se fossem independentes de Gina, foram quebrando os ovos, misturando, moldando o fettuccine, como sempre fizeram.

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Tudo se desenrolou como de costume, mas, ao final, quando os fios tinham ganhado forma, no exato momento em que as visões aconteciam, Gina recolheu os pedaços de massa rapidamente e atirou-os na água que fervia na caçarola. Não quis dar a mínima chance para uma nova visão. Em vez disso, ficou olhando para as bolhas que se acumulavam sobre a superfície aquosa e para o vapor que subia da panela. Lá se iam a farinha, os ovos e os sonhos, água fervente abaixo.

*Texto publicado originalmente na revista Dante Cultural. Disponível aqui.

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