Os dilemas do amor para uma menina gorda

Eu sou uma mulher gorda. Sempre fui. Ser gorda moldou muitos aspectos da minha personalidade, me fez enxergar a vida como eu enxergo, me relacionar com as pessoas como eu me relaciono. Faz parte de mim. E é libertador poder dizer isso, poder olhar para isso quase com a mesma naturalidade com que olho a textura e a cor do meu cabelo, dos meus olhos ou qualquer outro traço físico que eu tenha. Não é fácil, mas é possível e profundamente libertador. Só que nem sempre foi assim.

Passei muito tempo fugindo desta palavra: “gorda”. Quando eu era adolescente, além de estar constantemente em guerra contra a balança, também me mantinha em guerra contra essa ideia, morta de medo de me considerar “gorda”, pensando se eu não passaria, sei lá, como uma mulher de “ossos grandes”, “meio avantajada”, “grandalhona” ou algum outro eufemismo. Quando ia a festas ouquando ficava com algum garoto, também torcia para passar batido, para que ninguém “reparasse” que eu era gorda – o que, convenhamos, é bastante desafiador, porque se você é gorda é bem difícil parecer invisível. Sem falar nas vezes em que fingi não ouvir as piadinhas, os comentários maldosos, o preconceito travestido de elogio e os olhares tortos.

Enfim, percorri um longo caminho para chegar neste ponto, de olhar para quem eu sou com mais generosidade e clareza, e sinto uma imensa tristeza por não ter podido enxergar as coisas dessa forma quando era mais nova. Vejo que sofri demais e perdi muito tempo com o lado negativo de tudo isso. Mas percebo, também, que o momento é outro: não existia um movimento para que as mulheres se fortalecessem como são quando eu era adolescente, e em tudo o que eu consumia – livros, filmes, séries, TV – não apareciam mulheres ou meninas gordas, muito menos a reflexão de que, sim, há mulheres fora do padrão determinado como o ideal, e tudo bem. A diversidade faz parte da vida, é rica e precisa ser aceita.

Texto publicado em Lugar de Mulher. Leia integralmente clicando aqui.

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