O que deixamos para trás

No ano passado minha tia Mary morreu. Na verdade ela era uma tia-avó, irmã do meu avô materno, e era a figura mais excêntrica da família, daquelas que toda família tem. Espanhola de nascença, ela viveu grande parte da vida nos Estados Unidos, lecionando espanhol. Viajou muito, trabalhou para a família Roosevelt, conheceu o rei da Espanha e acumulou muitas outras peripécias que adorava contar com sua voz macia e uma minúcia deliciosa de detalhes.

Pois quando a tia Mary se foi, já à altura dos seus oitenta e tantos anos, o pequeno apartamento dela em Sevilha ficou para seus seis sobrinhos — minha mãe, minha tia, meu tio e três primas que moram na Espanha. E, então, depois de muitos rolos burocráticos, no mês passado, minha tia foi até lá visitar o apartamento semi-intocado da tia Mary, com o intuito de olhar o que tinha sido deixado, dividir quadros, bens e buscar relíquias preciosas que pudéssemos guardar de recordação.

No entanto, de tudo o que a minha tia viu lá, teve uma coisa que chamou a atenção. Era uma pequena caixa de porcelana, que ficava sobre o criado-mudo, e guardava cinco pedras arredondadas. Não eram pedras raras, nem brilhantes, mas um conjunto de pedregulhos meio encardidos, desses que se encontra em qualquer lugar. Pois diante daquilo minha tia e sua prima ficaram curiosas — por que raios a tia Mary guardaria uma quinquilharia daquelas?

Talvez tivessem um valor especial para ela. Talvez tivessem sido cuidadosamente recolhidas em pontos diferentes do mundo ou lembrassem alguma tarde romântica ao lado de um amor secreto. Talvez, de todas as joias e quadros e livros e roupas e tesouros que a tia Mary deixou em seu apartamento, aquelas cinco pedras sem importância fossem, para ela, os bens mais preciosos.

O fato é que passamos a vida atribuindo sentidos aos objetos que colecionamos, mas, depois que deixamos este mundo, aquilo que era tão caro para nós, tão representativo da nossa essência, volta a se tornar mero objeto. E para quem encontra as relíquias da pessoa que partiu, para quem entra em um apartamento deixado para trás, só o que resta é um conjunto indecifrável de quinquilharias, um amontoado de coisas que de certo tinham algum sentido, mas um sentido que vai ficar inacessível para sempre.

E já que vai ser eternamente indecifrável fiquei pensando que o apartamento da tia Mary fica, para mim, como uma espécie de templo, e as cinco pedrinhas como um símbolo sagrado, sacralizado porque pertenceu a uma vida humana de um jeito que somos incapazes de compreender. E, vai saber, talvez as pedrinhas não tivessem a menor importância nem mesmo para ela. Mas, para mim, sempre terão.

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