Tirando a roupa da escritora

Esqueci de dizer que eu sou escritora. E aconteceu duas vezes na última semana. Eu, que penso e falo tanto da importância de uma mulher que escreve confiar no seu trabalho, abrir sua escrita para o mundo, se dizer escritora sem medo. Eu, que passo tanto tempo discutindo a invisibilidade das mulheres na literatura, mas que também tenho os meus fantasmas presos no armário. Pois é, em casa de ferreiro…

Na semana passada mesmo, no lançamento da fanzine do #KDmulheres, discutimos muito essa dificuldade de se dizer “escritora”. Parece desafiador se apropriar desse título, como se ele fosse sagrado e guardado só para uns poucos escolhidos. E o que é preciso para conquistá-lo? Ter livros publicados, viver da escrita, ganhar prêmios, ser reconhecido pela imprensa? Ninguém sabe. E por isso mesmo persiste esse mistério, esse caminho que parece tão nebuloso para quem quer se tornar uma escritora ou um escritor.

É um mito que se sustenta porque é complexo: de um lado, reina o medo da arrogância, de que as pessoas achem que, porque você se diz escritor, você se julga melhor do que os outros; do outro, tem a síndrome de impostor, como se aquele posto não fosse para você, como se uma voz interna dissesse que você nunca vai ser bom o suficiente para se autodenominar “escritor”. Isso tudo acentuado, é claro, pelas questões de gênero: se um homem enfrenta esses receios ao se declarar “escritor”, uma mulher ainda sofrerá porque não se espera dela ocupar espaços de poder e destaque, porque a produção da literatura não deve estar ao seu alcance.

Pessoalmente, sempre achei que é escritor ou escritora quem constrói ou quer construir uma vida com os pés fincados na escrita, quem enche caderninhos e arquivos de Word, quem não consegue pensar em uma apreensão do mundo que não seja pelas palavras. Claro que tenho os mesmos receios que a maioria tem, uma insegurança, um medo de não ser boa o bastante, de soar ridícula ou arrogante demais, tudo misturado. Mas, lendo um trecho de “Carta a D.”, de André Gorz, alguns anos atrás, senti uma identificação profunda:

O principal objetivo do escritor não é o que ele escreve. Sua necessidade primeira é escrever. Escrever, isto é, ausentar-se do mundo e de si mesmo para, eventualmente, fazer disso a matéria de elaborações literárias. É apenas num segundo momento que se põe a questão do “tema” a ser tratado. O tema é a condição necessária, necessariamente contingente da produção de escritos. Não importa qual tema é o melhor, desde que ele permita escrever. Durante seis anos, até 1946, eu mantive um diário. Escrevia para conjurar a angústia. Não importava o quê; eu era um escrevedor. O escrevedor só se tornará um escritor quando a sua necessidade de escrever for sustentada por um tema que permita e exija que essa necessidade se organize num projeto. Somos milhões a passar a vida escrevendo, sem nunca terminar nem publicar nada.

Toda vez que leio este trecho é a parte final que ecoa na minha cabeça, “sem nunca terminar nem publicar nada”. No ano passado, publiquei meu primeiro livro, “Em Carne Viva”, que você pode comprar aqui e ajudar esta pobre alma. Senti um pouco de alívio. Mas, depois disso, o medo que passou a espreitar por trás da folha de papel e do computador é aquele com cara de prazo, de tic-tac de relógio, de ampulheta vertendo pó buraco abaixo. A vida urge, os freelas e projetos se acumulam e a escrita fica lá, sempre no último lugar da fila. Crescem a ansiedade e o medo de não organizar mais nada, de não concluir nada, de não concretizar tudo o que se queria.

O peso do chicotinho é forte: me cobro bastante pelos textos inacabados, pelo blog desatualizado, pela newsletter que morreu na praia — e a última edição da maravilhosa newsletter da Aline Valek aguçou um pouquinho da culpa. Mas penso, principalmente, nesta exigência que vem com a escrita. Não a urgência de por as angústias no papel, mas a necessidade de dar corpo e seriedade, de esvaziar o prazer e substituir pela obrigação, de transformar a brincadeira em trabalho.

Deve ter sido por isso que na última semana, mesmo sem perceber, tirei a escritora de mim como uma roupa que a gente desveste e esquece embolada em um canto do quarto. Quero ser escrevedora de novo. Quero voltar a ser feliz escrevendo. Quero ignorar os gritos da ansiedade e entender que, às vezes, parar e esperar é o melhor que se pode fazer pela escrita.

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