Visita a uma ocupação escolar em SP, articulação em rede e lições para todos nós

Meninos preparando o almoço na cozinha, meninas limpando e ajeitando o espaço, jovens jogando ping-pong e dando risada, gente trabalhando para receber convidados de forma organizada, sessão de cinema à noite e papos diversos acontecendo durante o dia. É surpreendente, mas o cenário que acabo de descrever é o que encontrei hoje em uma escola estadual da Lapa – uma das mais de 190 instituições ocupadas por alunos e alunas contra a reorganização escolar proposta pelo governo estadual de São Paulo –, em que estive com companheiras da ONG Casa de Lua. Nosso grupo foi chamado até ali para falar sobre questões de gênero, e assim o fizemos: sentadas no pátio da escola, conversamos com meninas de 16 e 17 anos que já se mostram muito conscientes das limitações impostas a elas por serem meninas e que, ao mesmo tempo, se mostram muito decididas a resistir.

Ali, no meio daquela conversa, não pude deixar de lembrar do número de vezes em que ouvi falar em apatia no último ano. Tenho circulado por escolas públicas e privadas para debates e cursos e muito se ouve dizer que os jovens de hoje estão indiferentes, que não se interessam por nada, que só querem saber de mexer no celular, de ficar na internet etc. Sem pensar muito se isso é verdade, acho que há razão de sobra para essa suposta apatia. Sempre achei difícil enquadrar alguém nesse modelo tradicional de ensino que impera nas escolas, mas hoje essa dificuldade só se acentua. Afinal, esse modelo não dialoga em nada com essa geração: enquanto a sala de aula exige passividade, silêncio e concentração, na internet, esses mesmos jovens podem ser agentes na construção do seu conhecimento. Ali (aqui), criam blogs e tumblrs, páginas nas redes sociais, se conectam com pessoas de qualquer lugar do mundo – inclusive com seus ídolos, que estão a um twitt ou a um comentário no Facebook de distância –, podem inventar hashtags que mobilizam centenas de pessoas e alcançar a lista dos assuntos mais falados nas redes.

Nesse contexto, as ocupações parecem dar uma oportunidade para que os alunos experimentem uma vivência igualmente autônoma dentro da escola, onde, como os relatos nos contam, eles têm criado programações alternativas mais alinhadas com seus interesses e cuidado do espaço escolar de uma forma muitas vezes inédita. Assim, passam a assumir um lugar mais atuante, experimentando diferentes papéis – de cozinhar, de limpar, de garantir a segurança, de pensar as aulas –, e se veem parte de uma estrutura política horizontal, em que sua voz importa e é necessária para que sejam tomadas decisões relevantes para todos. Têm nos dado, assim, uma lição de cidadania, cumplicidade, articulação e resistência, sem dar espaço para quem reproduz o discurso do senso comum de que jovem não quer nada com nada.

Outro fato notável é a força com que as meninas têm aparecido nas ocupações. Nas fotos da imprensa e na linha de frente das manifestações é a cara delas que vemos. É mais um passo que coroa o processo de fortalecimento dessas jovens, que vem desde a articulação de campanhas e movimentos online, passando pela constituição de grêmios e núcleos feministas. Elas estão com tudo, muito articuladas e preparadas para reconhecer atitudes machistas e combatê-las.

Enfim, não sabemos como ficará daqui para a frente. Há um adiamento confirmado da reorganização escolar e um período de férias logo adiante. Mas é claro, especialmente quando se vê o rosto desses alunos e alunas, que essa experiência vai transformar a vida deles. Eles puderam criar ou recuperar um vínculo de amor com a escola, estabelecer uma conexão mais estreita dentro da comunidade escolar, pensar um processo de aprendizagem mais livre e amoroso. E mais: com muita generosidade, compartilharam essa experiência com todos nós, para que repensemos a educação, a política e o cuidado com os jovens. Para que pensemos. Eu certamente vou pensar.

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