Onde acaba o eu e começa a mãe?

“Onde acaba o eu e começa a mãe?”, me pergunto. Eu, mãe, inconstante, tão fluida — leite, sangue, água e dor ensopando o travesseiro. Eu, mãe, perdida de tudo, especialmente de mim. Eu, mãe, esse passeio de montanha-russa, que de passeio não tem nada, com mais subida que descida, impossível de prever o que vem a seguir.

Eu, mãe. Quando fui, aos 26 anos, pensei: “Vai ser tranquilo. Vou ler tudo o que aparecer pela frente”. Foi o que eu fiz. De cara, aquele rosto rechonchudo na maternidade, e eu em pânico. Segui lendo tudo o que aparecia enquanto os seios sangravam e eu sentia uma dor profunda. De quê? Não sabia. Eu tinha um bebê saudável, me diziam. Para quê? Tem mulher que nem isso.

Hoje eu sei que tinha medo. Medo de ver meus traumas, de deixar um bebê morrer, mas medo principalmente de mim, da cisão profunda que havia ali, de enxergar verdadeiramente quem eu era. Todas as feridas abertas e eu morrendo de medo de olhar. Levei anos para entender, para lamber as feridas, para deixar cicatrizar.

E no meio do caminho eu descobri que a dor de ter um filho, de me abandonar, de me desconhecer, não era só minha. Que tinha algo muito maior do que eu, algo que amarrava todas as mulheres, especialmente as que eram mães. Aprendi que, por ser mãe, eu não podia desejar nada, eu não podia reclamar de nada, eu só tinha que agradecer. Eu só tinha que ser feliz. Eu tinha que olhar para o rosto do meu filho e me ver ali inteira, bastando. Aprendi que mesmo a mais parceira das amigas, a mais moderna das pessoas podia me repudiar porque eu tinha, sei lá, saído, bebido, trabalhado, me ausentado, qualquer coisa.

Percebi que não tinha lugar no mundo para uma mãe, então na perda, no buraco, conheci outras mulheres, como eu, que não queriam se abandonar na maternidade. Que amavam os filhos, a mornidão de mãozinhas sonolentas emaranhadas no cabelo, na barra da saia, mas que amavam também a rua, o mundo, o ser.

Na tentativa de me reencontrar, me deparei também com um outro lado, um outro ritmo. Um tom que recusa o zunido das ruas, dos carros e que prefere a música de crianças brincando, palminhas batendo, abraços espontâneos no meio da tarde. Tantas vezes eu, querendo não romantizar a maternidade, mas sensível, chorosa, diante de letras juntadas sem querer, um desenho surpresa, ataques de cócegas e risos.

É um jogo conflituoso. Uma balança que, tem dias, pende para a leveza e o desejo de que o tempo não passe nunca; em outros, cai para a vontade de subir em um ônibus e sumir para sempre.

Recentemente tive meu segundo filho. Tive muito medo de ser arrastada para o buraco de novo. Mas percebi que, se o primeiro tinha aberto um ciclo, o segundo havia fechado. Não tenho a arrogância de me achar pronta e concluída, é o contrário: é a humildade de dizer que não sei nada que me fortalece. Depois disso, ainda me separei. Descobri que havia outra fronteira, da mãe julgada por não estar sempre com os filhos, da mãe não autorizada a ter um corpo, um desejo, uma identidade própria. Achei que fosse morrer. Sobrevivi.

Hoje, percorro cada dia com a alma tranquila de quem não sabe o que espera. Não cheguei a lugar algum. Apenas me equilibro em uma corda bamba de ambiguidades, de toda a confusão — a minha, a deles e a do mundo. Abraço o caos, e seguimos lado a lado.

Encerro este texto no único momento possível: uma madrugada escura do silêncio de crianças dormindo. “Onde acaba o eu e começa a mãe?”, me pergunto. Não sei. Mas fico com a única certeza: de que eu e esses dois seres estamos para sempre atrelados uns aos outros, e de que estarei sempre à procura, ora na busca por eles, ora na busca por mim.

*Publicado originalmente no blog Mulheres que Escrevem.